Vozes Inúteis
Rui Barbosa (?–1923)
O começo
Acabamos de receber do Sobral este telegrama: “Senador Rui Barbosa. Mulheres e crianças estão morrendo à fome pelas estradas. Homens famintos, desesperados da vinda dos socorros, atacaram em centenas as propriedades e pretenderam assaltar o trem de cereais em Massapé. O trem não parou na estação. A caridade particular está exausta, o comércio coato. Clamai providências, para salvar nossos concidadãos, matando-lhes a fome.”
Clamai! Aí está. Pretendem os famintos do Ceará que clamemos. Mas clamar como? Clamar por quem? Para quem clamar? Há, neste país, ainda algum clamor, que se oiça, a não ser o do ventre político? Tempos tivemos, em que, nesta terra, havia vozes: vozes de protesto, vozes de censura, vozes de antagonismo, vozes de reação. A linguagem ainda servia então à nossa raça, para discutir, reclamar, argüir, fulminar, para tomar contas, distribuir justiça, vingar agravos, premiar virtudes, semear ideias, impor ditames, em nome da razão, em nome da honra, em nome da humanidade, em nome do povo. Hoje de ordinário a palavra não serve, senão para mentir, e calar, para servir, calando, e servir, mentindo,…
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