O Mártir Jesus
Alcântara Machado (?–1935)
O começo
De acordo com a tática adotada nos anos anteriores Crispiniano B. de Jesus vinte dias antes do carnaval chorou miséria na mesa do almoço perante a família reunida:
- As cousas estão pretas. Não há dinheiro. Continuando assim não sei aonde vamos parar!
Fifi que procurava na Revista da Semana um modelo de fantasia bem bataclã exclamou mastigando o palito:
- Ora, papai! Deixe disso…
A preta de cabelos cortados trouxe o café rebolando. Dona Sinhara coçou-se toda e encheu as xícaras.
- Pra mim bastante açúcar!
Crispiniano espetou o olhar no Aristides. Espetou e disse:
- Pois aí está! Ninguém economiza nesta casa. E eu que aguente o balanço sozinho!
A família em silêncio sorveu as xícaras com ruído. Crispiniano espantou a mosca do açucareiro, afastou a cadeira, acendeu um Kiss-Me-De-Luxo, procurou os chinelos com os pés. Só achou um.
- Quem é que levou meu chinelo daqui?
A família ao mesmo tempo espiou debaixo da mesa. Nada. Crispiniano queixou-se duramente da sorte e da vida e levantou-se.
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