Amor de Perdição
O começo — V
Balthazar Cominho estava na sala, simulando vingativa indiferença por sua prima. As irmãs do fidalgo e a de mais parentela da casa não deixavam respirar Teresa. Moças e velhas, todas à uma, se repetiam, aconselhando-a a reconciliar-se com seu primo, e dar a seu pai a alegria que o pobre velho tanto rogava a Deus, antes de fechar os olhos. Replicava Teresa que não queria mal a seu primo, nem sequer eslava sentida dele; que era sua amiga, e sêl-o-ia sempre em quanto lhe ele deixasse livre o coração.
O velho esperava muito daquela noitada de festa. Alguns parentes, presumidos de prudentes, lhe tinham dito que seria proveitoso regalar a filha com os prazeres congruentes à sua idade, dando-lhe ensejo a que ela repartisse o espirito, concentrado num só ponto, por diversões em que a natural vaidade se preocupa, e a força do amor contrariado se vai a pouco e pouco quebrantando. Aconselharam-lhe as reuniões amiudadas, já em sua casa, já na dos seus parentes, para deste modo Teresa se mostrar a muitos, ser cortejada de todos, e ter em opinião de menos valia o único homem com quem falava, e a quem julgava superior a todos. O fidalgo acedeu, mas com dificuldade; porque tinha lá um sistema seu de…
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.