
A Confissão de Lúcio: Narrativa
Mário de Sá-Carneiro (1890–1916)
O começo — I
Por 1895, não sei bem como, achei-me estudando direito na Faculdade de Paris, ou melhor, não estudando. Vagabundo da minha mocidade, após ter tentado vários fins para a minha vida e de todos igualmente desistido—sedento de Europa, resolvera transportar-me à grande capital. Logo me embrenhei por meios mais ou menos artísticos, e Gervasio Vila-Nova, que eu mal conhecia de Lisboa, volveu-se-me o companheiro de todas as horas. Curiosa personalidade essa de grande artista falido, ou antes, predestinado para a falencia.
Perturbava o seu aspecto físico, macerado e esguio, e o seu corpo de linhas quebradas tinha estilisações inquietantes de feminilismo histerico e opiado, umas vezes—outras, contrariamente, de ascetismo amarelo. Os cabelos compridos, se lhe descobriam a testa ampla e dura, terrível, evocavam cilícios, abstenções roxas; se lhe escondiam a fronte, ondeadamente, eram só ternura, perturbadora ternura de espasmos dourados e beijos subtis. Trajava sempre de preto, fatos largos, onde havia o seu quê de sacerdotal—nota mais frisantemente dada pelo colarinho direito, baixo, fechado. Não era enigmático o seu rosto—muito pelo contrario, se lhe cobriam a testa os cabelos ou o chapéu. Entanto, coisa…
Mário de Sá-Carneiro (autor) morreu em 1916; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1987.