
Dispersão (Poema)
Mário de Sá-Carneiro (1890–1916)
O começo
Perdi-me dentro de mim / Porque eu era labirinto, / E hoje, quanto me sinto, / É com saudades de mim.
Passei pela minha vida / Um astro doido a sonhar. / Na ânsia de ultrapassar, / Nem dei pela minha vida…
Para mim é sempre ontem, / Não tenho amanhã nem hoje: / O tempo que aos outros foge / Cai sobre mim feito ontem.
(O Domingo de Paris / Lembra-me o desaparecido / Que sentia comovido / Os Domingos de Paris:
Porque um domingo é família, / É bem-estar, é singeleza, / E os que olham a beleza / Não têm bem-estar nem família).
O pobre moço das ânsias… / Tu sim, tu eras alguém! / E foi por isso também / Que te abismaste nas ânsias.
A grande ave dourada / Bateu asas para os céus, / Mas fechou-as saciada / Ao ver que ganhava os céus.
Como se chora um amante, / Assim me choro a mim mesmo: / Eu fui amante inconstante / Que se traiu a si mesmo.
Não sinto o espaço que encerro / Nem as linhas que projeto: / Se me olho a um espelho, erro - / Não me acho no que projeto.
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