
Ao Entardecer (Contos Vários)
Alfredo d'Escragnolle Taunay, Visconde de Taunay (1843–?)
O começo — I
Em dia fresco e de chuva miúda, viajava eu na estrada de ferro Central.
Vinha de S. Paulo para o Rio de Janeiro em trem que parecia, contra inveterados hábitos, dever chegar à hora regulamentar.
A locomotiva como que se aprazia a devorar o espaço—na frase consagrada—por tempo tão grato que dispensava calor, poeira e grandes atrazos, e o jornadear, calculado por tabela oficial de paradas certas, inflexíveis, sempre as mesmas, era relativamente agradável.
Na estação do Cruzeiro, onde desde largos anos—ia dizendo séculos—imperam o porte dominador, a alentada bengala, a enérgica gesticulação e as barbas medieváes e enchumaçadas do major Novaes, entrou uma família, regressando de Caxambú.
Páe, mãe, bastante moços, esta ainda vistosa, 10 bonita, um filho, de 12 para 13 anos, visivelmente doente, duas criadas, uma branca, outra preta, e um molecóte vestido de pagem, muitas malinhas de mão, chales, cobertores, travesseiros, garrafas de leite e águas minerais, embrulhos com restos, sem duvida, da matolotagem, comida à descida da serra.
Alfredo d'Escragnolle Taunay, Visconde de Taunay (autor) morreu em 1899; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1970.