Sentimento Apocalíptico
O começo
Pensando que cada passo na minha vida era um contato com o horror do Novo, e que cada nova pessoa que eu conhecia era um novo fragmento vivo do desconhecido que eu punha em cima da minha mesa para quotidiana meditação apavorada - decidi abster-me de tudo, não avançar para nada, reduzir a ação ao mínimo, furtar-me o mais possível a que eu fosse encontrado quer pelos homens, quer pelos acontecimentos, requintar sobre a abstinência e pôr a abdicação a bizantino. Tanto o viver me apavora e me tortura.
Decidir-me, finalizar qualquer coisa, sair do duvidoso e do obscuro, são coisas [que] se me figuram catástrofes, cataclismos universais.
Sinto a vida um apocalipse e cataclismo. Dia a dia em mim aumenta a incompetência para sequer esboçar gestos, para me conceber sequer em situações claras de realidade.
A presença dos outros - tão inesperada de alma a todo o momento - dia a dia me é mais dolorosa e angustiante. Falar com os outros percorre-me de arrepios. Se mostram interesse por mim, fujo. Se me olham, estremeço. Se estou numa defesa perpétua. Dôo-me a vida e a outros. Não posso fitar a realidade frente a frente. O próprio sol já me desanima e me desola. Só à noite, e à noite a sós comigo, alheio, esquecido, perdido - sem liga com a realidade nem parte com a utilidade - me encontro e me dou conforto.
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