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Cenotáfio

Bernardo Soares

Crônica e ensaio2 min de leitura2 páginas

O começo

Nem viúva nem filho lhe pôs na boca o óbolo, com que pagasse a Caronte. São velados para nós os olhos com que transpôs o Estige e viu nove vezes refletido nas águas ínferas o rosto que não conhecemos. Não tem nome entre nós a sombra agora errante nas margens dos rios soturnos; o seu nome é sombra também.

Morreu pela Pátria, sem saber como nem porquê. O seu sacrifício teve a glória de não se conhecer. Deu a vida com toda a inteireza da alma: por isso, não por dever; por amor à Pátria, não por consciência dela. Defendeu-a como quem defende uma mãe, de quem somos filhos não por lógica, senão nascimento. Fiel ao segredo primevo, não pensou nem quis, mas viveu a morte instintivamente, como havia vivido a sua vida. A sombra que usa agora se irmana com as que caíram em Termópilas, fiéis na carne ao juramento que haviam nascido. Morreu pela Pátria como o sol nasce todos os dias. Foi por natureza o que a Morte havia de torná-lo. Não caiu servo de uma fé ardente, não o mataram combatendo pela baixeza…

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