O Nome
Manuel Antônio de Almeida (?–1861)
O começo
Dizem os gramáticos, gente detestável nestes tempos de discordância, que o nome é uma voz com que se dão a conhecer as coisas. Quando nos tempos de colégio de minha memória, rebelde às exigências do decurião, recusava guardar no seu arquivo esta triste definição, é que o meu espírito, agora o conheço, pressentia-lhe já todo o absurdo e falsidade. Nunca em verdade uma mentira tão grande se escreveu em letra redonda.
Aquilo por que as coisas menos se dão a conhecer neste mundo é pelo seu nome.
O nome é hoje, e não sei se o deixou de ser em algum tempo, a primeira mentira de todas as coisas: é como um cunho do pecado original impresso sobre tudo o que existe.
A tradição da Torre de Babel parece-me errada até certo ponto; o que ali se confundiu não foram as línguas, foram os nomes das coisas.
Daí datou, segundo penso, em falta de origem mais remota, essa confusão à custa da qual tanta gente vive.
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