As Muletas de Sixto V
Manuel Antônio de Almeida (?–1861)
O começo
Aquela tão sabida história das muletas do Inquisidor de Veneza, é a parábola da hipocrisia, que tem aplicação a todos os atos da vida humana. Todos neste mundo andam de muletas, e todos as atiram ao chão quando trocam o seu barrete em mitra.
Como vai um candidato à casa de um eleitor? De muletas.
Como vai um pretendente à casa de um ministro? De muletas.
Como entra um cortesão nos paços reais? De muletas.
Mas o candidato apenas conta maioria esquece o nome do eleitor, faz nova profissão de fé, ou antes faz profissão de nova fé, porque todas as profissões são iguais apesar de haver tanta fé diferente, ergue a cabeça, põe a mitra, atira fora as muletas: é deputado, é papa!
Um pretendente que alcançou despacho não é mais do que um cardeal que subiu ao papado; fora pois com as muletas da humildade!
Um cortesão quando sabe da presença real deixa as muletas atrás da porta do paço, e caminha de mitra alta, mandando cortar a língua que lhe dirige o mais leve epigrama.
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