
Só
António Pereira Nobre (1867–1900)
O começo — 19, QUAI SAINT-MICHEL, 19
Tous Droits Réservés / MEMORIA Á MINHA MÃE AO MEU PAE / Aquelle que partiu no brigue Boa Nova , / E na barca Oliveira , anos depois, voltou; / Aquelle santo (que velhinho e já corcova) / Uma vez, uma vez, linda menina amou: / Tempos depois, por uma certa lua-nova, / Nasci eu… O velhinho ainda cá ficou, / Mas ela disse:—«Vou, ali adiante, à Cova , / Antonio, e volto já…» E ainda não voltou! / Antonio é vosso. Tomae là a vossa obra! / «Só» é o poeta-nato, o lua , o santo, a cobra! / Trouxe-o de um ventre: não fiz mais do que escrever… / Lede-o e vereis surgir do poente as idas magoas, / Como quem ve o sol sumir-se, pelas águas, / E sobe aos alcantis para o tornar a ver!
*Antonio*
Que noite de inverno! Que frio, que frio! / Gelou meu carvão: / Mas boto-o à lareira, tal qual pelo estio, / Faz sol de verão!
Nasci, num Reino de Oiro e flores / Á beira-mar.
Ó velha Carlota, tivesse-te ao lado, / Contavas-me histórias: / Assim… desenterro, do val do passado, / As minhas Memorias.
António Pereira Nobre (autor) morreu em 1900; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1971.