Um Poema d'alma
Ernesto Pires (1857–1884)
O começo
<põem> / AO SNR. CAMILLO CASTELLO BRANCO / Eu sou como uma estatua, à qual n′um cemitério A luz apenas doira o livido int′rior; Meu seio é triste, escuro e cheio de mistério, / Minha alma sem calor. ( Occasos . — Pedro de Lima.) I / Chorar! sempre chorar!… / Estanca-te, meu pranto! / Consente que erga a voz, débil do sofrimento, Minh′alma angustiada, e que nos diga o quanto Tem sido doloroso o seu cruel tormento. Escutemos a triste. A sua historia é breve. Veremos o vigor com que ela nos descreve As pálidas visões da sua mocidade. Contar-nos-ha, também, com infantil saudade, As horas que passou, escutando as mimosas E inspiradas canções, que lhe deram as rosas
Do seu único amor, — um ideal proscrito / Na treva do passado, um dédalo infinito. / Dirá que a sua amante era bela e franzina, / Que tinha o colo branco, as formas de uma ondina / E no lábio impolluto um sorriso candente, / Vermelho como a cor que tem o sol ponente. / Cogitará depois como é que nasce a aurora / De esp′erançosa ilusão e como se evapora / No ocaso sepulcral das coisas invisíveis! / — A esperança e a ilusão são sempre marcesciveis. / Só temos dentro em nós um incola immudavel, / Chamado sofrimento, enorme, perdurável, / Nasce e morre conosco e, seja breve ou longa / Nossa estada na terra, ele nunca nos deixa! / Se é larga a nossa vida a d′ele se prolonga, / Só fecha os olhos…
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