
Na Guella do Leão
António Maria José de Melo César e Meneses, conde de Sabugosa (1854–?)
O começo
—Será enguiço, superstição, pressentimento. Será! E acrescentou: Diga-me. Quer muito a este velho casarão?
—Não sabe como lhe quero? Com que intenção veio então hoje aqui? Com que fim me escreveu esta carta?
E apresentou-lhe o bilhete que recebera.
Pelo espanto da encantadora viúva, pelo veu de tristeza que lhe passou na cara, desfazendo as covas que o habito do riso lhe cavára nas faces, pelo morder dos beiços mais de molde para caricias de amor do que para ímpetos de despeito, Carlos compreendeu a imprudência que cometerá mostrando aquela carta.
—Nem a letra me conhece já! disse Mathilde com tristeza. E com a emoção de uma ideia súbita:—Pois bem, imagine que fui eu que lhe escrevi essa carta e conceda-me o enorme prazer de lhe evitar um desgosto. A minha fortuna…
—Por Deus não continue, interrompeu Carlos tornando-se pálido. Avalio a generosidade do seu oferecimento imprudente, mas peço-lhe que me evite o dissabor de recusar uma esmola. Escrito por mão anônima esse bilhete vai esquecido para o cesto dos papéis velhos. Mas se eu a escutasse, a si, Mathilde, sem um protesto, desceria no seu conceito, desceria no meu, dava direito à sociedade a que trocasse o nome que tenho por outro, que a literatura francesa consagrou para resumir todo o desprezo por uma classe. Estimaria que amanhã alguém apontando-me com o dedo me chamasse: Monsieur Alphonse?
António Maria José de Melo César e Meneses, conde de Sabugosa (autor) morreu em 1923; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1994.