Para Ler nas Férias
Maria O'Neill (?–1932)
O começo — A desobediente
Mariana tinha oito anos e já sabia ler muito bem. Era, além de inteligente, estudiosa, e punha o maior cuidado e atenção em aprender quanto lhe ensinavam. Mas tinha um grande defeito: queria governar-se pela sua cabeça. E, segundo afirmava nos seus momentos de franqueza, obedecer era a cousa mais desagradável que conhecia.
O pai, que era muito amigo dela, procurava convéncê-la da necessidade que todos temos, pequenos e grandes, de obedecer aos nossos superiores. Ela sorria incrédula e, imitando um palhaço que vira no Coliseu dos Recreios , gritava num tom muito desafinado:
― Viva a independência!
O pai não podia resistir ao riso e acabava o sermão; mas a mãe contraía as sobrancelhas em sinal de desagrado e dizia para o marido:
― Não sei como podes rir, Ildefonso. O feitio desta criança há de dar-nos sérios desgostos.
― E's uma péssimista, respondia rindo o pai de Mariana.
E, pedindo o chapéu e a bengala, despedia-se da mulher, beijava a filha e ia flanar pelas ruas da Baixa em companhia dos amigos, enquanto a mãe, mal umorada, curvava a cabeça sobre a costura e se quedava longas horas silenciosa.
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