
Horas de Folga
Maria O'Neill (?–1932)
O começo — O raio
João chorava, trêmulo, agarrado à saia da mãe, escondendo o rosto no avental de riscado para não ver o fuzilar dos relâmpagos.
A mãe afagava-lhe os caracóis loiros, procurando consolá-lo.
Nisto, entrou seu primo Luís, mais velho cinco anos do que ele, e, depois de beijar a tia, perguntou-lhe:
— ¿Porque choras?
— Tenho medo da trovoada.
— Também eu; mas isso não é razão. Pareces um maricas .
Esta expressão de maricas pareceu ofensiva a João, que corou até às orelhas, limpou os olhos e, fazendo um esforço sobre si próprio, chegou perto da janela e esperou ver o relâmpago e ouvir o trovão. Fitou um, ouviu o outro sem pestanejar, e depois, voltando-se para o primo, perguntou-lhe:
O primo Luís
— ¿E agora?… ¿ainda te parêço um maricas?
— Não. Agora tens o ar dum homem.
João sorriu satisfeito e, depois dum instante, perguntou:
— ¿É Deus, quando se zanga, que desabafa assim a sua cólera, Luís?
— Não, meu amigo. Isto é uma descarga elétrica produzida entre uma nuvem e a terra: descarga que se dá muitas vezes durante uma tempestade.
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