Recordações Gaúchas
Luís Araújo Filho (?–1918)
O começo — I
- Que lhe parece, compadre, a história do Gabriel, hein?
- É verdade; também dar-se dinheiro a um sujeito extravagante…
- Está assim meio parecida com aquela do Cipriano Silva.
- Qual! aquele não deu prejuízo a ninguém; é verdade que sumiu-se com o dinheiro dos outros; mas comprou gado, arrendou campo, e na primeira safra apareceu, pagou tudo até com juros e arrumou a vida; mas este Gabriel não; este era um gastador conhecido, um perdido, um alarife.
- Dizem que aí pelas imediações do Pau Fincado chegou a uma casa para pedir água e como estavam fazendo pão pediu um, que uma moça lhe deu, e ele em troca deu uma onça de ouro.
- Aí tem; é porque não lhe custaram a ganhar; mas afinal veja o que lhe aconteceu. Chegando ao lugar onde devia apartar os gados para os patrões, intitulou-se tropeiro por sua conta, e, enquanto esperava uns dias, namorou a filha do estancieiro, e já estava para casar, quando senão quando, pela demora e pelas notícias que ele ia deixando, chegou a policia e ali mesmo em presença da noiva foi preso e atado como um Cristo. O dinheiro já tinha gastado quase a metade, porque pagodista ele era e bem.
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