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Ode à Noite

Álvaro de Campos

Poesia3 min de leitura3 páginas

O começo

Vem, Noite antiquíssima e idêntica, / Noite Rainha nascida destronada, / Noite igual por dentro ao silêncio, Noite / Com as estrelas lentejoulas rápidas / No teu vestido franjado de Infinito.

Vem, vagamente, / Vem, levemente, / Vem sozinha, solene, com as mãos caídas / Ao teu lado, vem / E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas, / Funde num campo teu todos os campos que vejo, / Faze da montanha um bloco só do teu corpo, / Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo, / Todas as estradas que a sobem, / Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe. / Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores, / E deixa só uma luz e outra luz e mais outra, / Na distância imprecisa e vagamente perturbadora, / Na distância subitamente impossível de percorrer.

Nossa Senhora / Das coisas impossíveis que procuramos em vão, / Dos sonhos que vêm ter conosco ao crepúsculo, à janela, / Dos propósitos que nos acariciam / Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas / Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto, / E que doem por sabermos que nunca os realizaremos… / Vem, e embala-nos, / Vem e afaga-nos. / Beija-nos silenciosamente na fronte, / Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam / Senão por uma diferença na alma. / E um vago soluço partindo melodiosamente / Do antiquíssimo de nós / Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha / Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos / Porque os sabemos fora de relação com o que há…

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