
Fausto (Traduzido por Agostinho de Ornelas)
O começo — I
PRIMEIRA PARTE DA TRAGEDIA NOITE FAUSTO (Numa câmara gótica, alta, abobadada e estreita, inquieto sobre um assento junto da banca) / Philosophia, leis e Medicina, / Theologia até, com pena o digo, / Tudo, tudo estudei com louco empenho! / E eis-me aqui agora, pobre tolo, / Tão sábio como dantes! É verdade / Que sou mestre, doutor, e há já dez anos / Que discípulos levo a meu talante / Á esquerda, à direita, ao sul ou norte. / Mas conheço que nada nós sabemos! / Roe-me isto o coração! Sinto-me acima / De mestres e de padres e de escribas, / Não me perseguem duvidas nem 'scrupulos, / Nem do demônio ou do inferno hei medo;
Mas também nunca tenho um'hora alegre! / Nem chego a imaginar que haja ciência / Em que deveras creia, nem que saiba / Cousa alguma ensinar que aos homens sirva, / E convertê-los possa ou melhorá-los. / Também não possuo eu nem bens, nem ouro, / Nem grandezas ou glorias deste mundo; / Um cão não supportára uma tal vida! / Por isso me entreguei todo à magia / Para ver se do espirito as potências / Alguns arcanos revelar-me podem, / Por que não haja com suor amargo / Densinar o que ignoro; o que sustenta / Do mundo o interior conhecer logre, / Veja as forças ativas, veja as causas / E cesse o traficar com vans palavras!
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