A Feiticeira (Afonso Arinos)
O começo
Não. Não aguento tamanho pouco caso: era o que faltava! E, diante destes olhos, fazer o que ele fez, minha Senhora da Conceição!
Assim pensando aí vinha a Benedita - alta, esbelta, mostrando na saia leve de cambraia a opulência dos quadris de mulata bem fornida. Sacudia a cabeça, enraivecida, endireitava o corpo e, pousando as mãos na cintura, parava de repente, em atitude de desafio. Continuava depois a marcha, perseguida pela mesma ideia má; estrada afora, ia esmagando, sob os sapatinhos de couro cheios de pelos brancos, as flores e os arbustos. Às vezes, num gesto estouvado, desmanchava a laçada do lenço de seda cor de ouro fosco, que tão bem lhe coifava a grenha luzidia.
- Eu mostro a esse diabo! Há de me pagar o atrevimento! E traçava nervosamente o xale fino, de cor vistosa, que havia comprado na véspera para assistir à procissão. Chocalhavam- lhe no pescoço as contas escuras de "lágrimas-de-nossa-senhora" e as bichas de ouro faiscavam ao sol, brunindo, com o reflexo, a face afogueada da rapariga.
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