O Enjeitado
Alberto Leal Barradas Monteiro Braga (1851–?)
O começo — ALBERTO BRAGA
A Joaquina do Espinhal tinha ido, no fim da tarde, lavar ao rio a roupa dos pequenos. Era no mês de dezembro. A água corria por entre os choupos, fria e levemente encrespada pela brisa que soprava do norte. Joaquina do Espinhal, com as saias arregaçadas na cintura, as pernas metidas na água ate ao joelho, ensaboava a roupa e batia-a com força sobre a pedra poida e lustrosa do lavadouro.
Da outra banda, pelo carreiro que havia à beira do rio, passou o filho do moleiro a tanger os machos. O rapaz ia tranzido de frio, com a gola da jaqueta apanhada para as orelhas, a assobiar alto. Assim que reconheceu a lavadeira, parou, fincou a mão ao tronco de uma arvore, e, debruçando-se sobre o rio, perguntou de lá:
—Vocemecê não tem frio?
A Joaquina aprumou-se e respondeu:
—Ai! és tu, Jeronymo! Frio? Quem fala nisso? Quando a gente tem filhos, não deita conta a nada. Onde ides?
—Vou levar a fornada a casa do sr. doutor.
Alberto Leal Barradas Monteiro Braga (autor) morreu em 1911; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1982.