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Se te Queres

Álvaro de Campos

Poesia3 min de leitura2 páginas

O começo

Se te queres matar, por que não te queres matar? / Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida, / Se ousasse matar-me, também me mataria… / Ah, se ousares, ousa! / De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas / A que chamamos o mundo? / A cinematografia das horas representadas / Por atores de convenções e poses determinadas, / O circo policromo do nosso dinamismo sem fím? / De que te serve o teu mundo interior que desconheces? / Talvez, matando-te, o conheças finalmente… / Talvez, acabando, comeces… / E, de qualquer forma, se te cansa seres, / Ah, cansa-te nobremente, / E não cantes, como eu, a vida por bebedeira, / Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente! / Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém… / Sem ti correrá tudo sem ti. / Talvez seja pior para outros existires que matares-te… / Talvez peses mais durando, que deixando de durar…

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