O Livro de Elysa Fragmentos
João de Lemos (1819–1890)
O começo — FRAGMENTOS · I
Elysa!--Vou escrever um livro, mas um livro só para ti.
Há de ser a tradução do pensamento revoando caprichoso por todo esse universo; há de ser o monumento de uma longa saudade ingenhosa a não desperdiçar uma hora de remanso, a não sorrir nem suspirar senão contigo; há de ser um jornal do coração, de que tu serás o único assinante, o único leitor, e mais ainda o único entendedor; há de ser o desapertar incerto de ramalhetinhos da minha musa melancolicamente suave ou desesperada, há de ser, enfim, o exercício de uma devoção sublime do amor, será talvez o de um sacerdócio misterioso, será de certo o de um martírio de ausência pungente.
Anjo!--este livro deve ser muito amado por ti.
Quero-o à cabeceira do teu leito, no teu toucador, na mesa do almoço, no cestinho da tua costura, nos teus passeios, no teatro, no baile, na corte, na província, nos risos, nas lagrimas, na esperança, no desconsôlo, na vida, na morte. Em qualquer parte, em qualquer circunstância que te encontres, abre-o; abre-o com a crença supersticiosa do amor e da ternura, que nele beberás uma superstição amorosa e terna, para alegrar-se e para gemer contigo.
João de Lemos (autor) morreu em 1890; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1961.