Morte (Hora de Delírio)
Junqueira Freire (?–1855)
O começo
Pensamento gentil de paz eterna / Amiga morte, vem. Tu és o termo / De dous fantasmas que a existência formam, / — Dessa alma vã e desse corpo enfermo.
Pensamento gentil de paz eterna, / Amiga morte, vem. Tu és o nada, / Tu és a ausência das moções da vida, / do prazer que nos custa a dor passada.
Pensamento gentil de paz eterna / Amiga morte, vem. Tu és apenas / A visão mais real das que nos cercam, / Que nos extingues as visões terrenas.
Nunca temi tua destra, / Não vou o vulgo profano; / Nunca pensei que teu braço / Brande um punhal sobr'humano.
Nunca julguei-te em meus sonhos / Um esqueleto mirrado; / Nunca dei-te, pra voares, / Terrível ginete alado.
Nunca te dei uma foice / Dura, fina e recurvada; / Nunca chamei-te inimiga, / Ímpia, cruel, ou culpada.
Amei-te sempre: — pertencer-te quero / Para sempre também, amiga morte. / Quero o chão, quero a terra, - esse elemento / Que não se sente dos vaivens da sorte.
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