Elegia da Solidão
Teixeira de Pascoais (1877–?)
O começo
Tip. «Flor do Tamega» / Amarante.
+ELEGIA DA SOLIDÃO+ / a Fernando Maristany
O incêndio do sol-pôr exala um fumo rôxo / Que às cousas vela a face… / A macerada flor da solidão renasce; / O seu perfume é fria e branda mágoa, / Bruma que já foi água… / Todo sombra e luar esvoaça o môcho; / Uma nuvem enorme, ao longe, no poente / Desvenda o coração que se deslumbra / E abraza intimamente… / O silencio a crescer, é onda que se espalha… / Sente-se vir o outono; é já noitinha, orvalha… / Nos êrmos pinheirais gemem as noitibós / E vultos de mulher, sumidos na penumbra, / Passam cantando, além, com lagrimas na voz…
Ó tristeza do mundo em tardes outomnaes! / Longínqua dor beijando-nos o rosto… / Crepúsculo esfumado em íntimo desgosto, / Bôca da noite acesa em frios ais… / Aparição soturna, vaga imagem / Do medo e do mistério… / Que solidão escura na paisagem! / Tem fantasmas e cruzes, / Tem ciprestes ao vento e moribundas luzes, / Como se fosse um grande cemitério.
Teixeira de Pascoais (autor) morreu em 1952; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 2023.