À Ventura
Teixeira de Pascoais (1877–?)
O começo
Oh Saudade tantas vezes invocada, / Musa, que tantos infelizes inspiraste! / Tu, que nos deixas a nossa alma iluminada, / Que tantas Lyras, com teus dedos, afinaste!
Oh saudade que és das dores a mais linda, / Que das tristezas és a mais menina e moça, / A mais eleita, a Desejada, a mais bem vinda! / A que mais nos governa, a mais senhora nossa!
Enche o meu coração da tua claridade, / Desse raio de luz tremulo e moribundo, / —Que é o fogo-fatuo de perdida mocidade,— / Com que o sol, ao morrer, ensanguenta o mundo!
E quando à tarde, em labaredas, o Poente / Parece, na distancia, uma outra Roma a arder! / É uma saudade, é a dor que a natureza sente / Pelo sol que a fecunda e faz reverdecer!
Oh minha musa triste e dolhos lacrimosos! / Ensina-me a pintar o que é ficarmos sós! / Que eu saiba ler nos corações desfortunosos, / Que eu aprenda a cantar com lagrimas na voz!
É sempre ao pôr do sol a hora de partir! / É quando chora nos pinhais o vento norte, / Que tão bem sabe em doidos gritos traduzir / A dor dos que andam sempre ao Deus-dará da sorte !
Teixeira de Pascoais (autor) morreu em 1952; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 2023.