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A Meretriz

Augusto dos Anjos (?–1914)

Poesia4 min de leitura3 páginas

O começo

Uma mulher completamente nua!

É a meretriz que, de cabelos ruivos,

Bramando, ébria e lasciva, hórridos uivos

Na mesma esteira pública, recebe,

Entre farraparias e esplendores.

O eretismo das classes superiores

E o orgasmo bastardíssimo da plebe!

É ela que, aliando, à luz do olhar protervo,

O indumento vilíssimo do servo

Ao brilho da augustal toga pretexta,

Sente, alta noite, em contorções sombrias,

Na vacuidade das entranhas frias

O esgotamento intrínseco da besta!

E ela que, hirta, a arquivar credos desfeitos,

Com as mãos chagadas, espremendo os peitos,

Reduzidos, por fim, a âmbulas moles,

Sofre em cada molécula a angústia alta

De haver secado, como o estepe, à falta

Da água criadora que alimenta as proles!

É ela que, arremessada sobre o rude

'Despenhadeiro da decrepitude,

Na vizinhança aziaga dos ossuários

Representa, através os meus sentidos,

A escuridão dos gineceus falidos

E a desgraça de todos os ovários!

Irrita-se-lhe a carne à meia-noite.

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