A Filha do Cabinda
Alfredo Campos (1847–1906)
O começo — I
A filha do cabinda é formosa como a visão de um sonho celeste; meiga como o canto do sabiá, poisado nos galhos do cajueiro, e ingenua como a virgem da inocência.
O cabinda é negro, e negro de raça fina, mas é branca a sua filha, e filha, porque o velho escravo quer muito à senhora moça, que ele beijava e embalava no seu colo, quando era pequenina.
Revê-se nela, e nela se mira doido dafeição o pobre negro, e tanto a gravou na ideia, tanto a traz no coração, que chega até a esquecer-se do trabalho, sujeitando-se às reprehensões do seu senhor, para, insensivelmente, se entregar a cismar nela, que é tão bondosa, tão meiga e tão carinhosa para ele; nela, que, por uma destas ilusões, destas miragens, destas doidices, de um grande afeto e de uma viva simpatia, chega a julgar realmente sua filha.
E filha do cabinda lhe chama ele.
O negro vivia na sua terra, alegre e feliz; lá tinha seus pais, a sua companheira, os filhos e a sua família.
Alfredo Campos (autor) morreu em 1906; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1977.