Os Bravos do Mindelo Romance Histórico
Faustino da Fonseca (1871–1918)
O começo — I (p. 005)
Ao tiro de peça acordou João de um inquieto sono de namorado e, apoiando o cotovelo no grande leito de alta cabeceira de tarja, prestou atenção.
Seria salva do castelo, ou vinha navio de Lisboa confirmar as aprehensões dos sonhos agitados em que Maria se esquivava sempre ao caloroso enlace dos seus braços, e um súbito quebranto o impossibilitava de persegui-la, e um sobressalto, como que a queda do ideal, interrompia o laborioso despertar da sua estuante virilidade?
Não se repetiram detonações que o tranquilisassem e, no brando rumor cantante e alegre, reconheceu o (p. 006) romper dalva. Deitou pelos ombros um capote azul de cabeção, e fechos de prata, apagou a candia de ferro cujo espelho areado reluzia e tirou a tranqueta que especava, desde a cunha ao encaixe da parede, o postigo das pesadas portas de cedro da janela de peitoril.
Pelo pequeno caixilho de minguados vidros azulados percebeu a confusa luz da manhã.
Faustino da Fonseca (autor) morreu em 1918; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1989.