Verdades Amargas Estudo Politico Dedicado às Classes que Pensam, que Possuem e que Trabalham
Cláudio José Nunes (1831–?)
O começo — I
Haverá critério moral no país, em tão larga escala e com tal cunho, que dê fisionomia à vida publica portuguesa?
Infelizmente, não.
É certo que não escaceia nas transações da vida particular essa honestidade, que à força de ser obrigação, não passa de banal virtude. Toda a terra em que ela chegasse a constituir excepção cedo se converteria numa charneca de salteadores, aonde o mais robusto e o mais audaz tomaria a realeza do roubo e do assassinato.
Não falta igualmente quem modele o seu procedimento, no trato comum, pelas normas de escrupulosa delicadeza, não consentindo que a sombra sequer de uma duvida lhe embacie a transparência do nome.
Mas não se trata aqui de indivíduos; aprecia-se a coletividade.
Não se alude a homens; fala-se do país.
Do país que elege.
Do país que legisla.
Do país que governa.
Do país politico, numa palavra.
Neste, força é confessá-lo, as excepções invadem a regra geral.
As convicções andam ali geralmente à mercê dos ventos do céu.
Cláudio José Nunes (autor) morreu em 1875; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1946.