
A Capital Federal (Impressões de um Sertanejo)
Henrique Coelho Netto (1864–?)
O começo — I
Para estar de acordo com o horario dos trens devíamos chegar às oito horas e alguns minutos à estação, e estou certo de que assim teria acontecido se não fosse o folgado e paciente atraso de duas horas e meia, que tivemos de aturar dentro dos compridos wagons de primeira classe, nada inferiores ao carcere duro .
Desde as quatro da manhã, quando deixei o tecto paterno, saindo para a névoa dos campos frios, até àquela hora, andava meu pobre corpo aos solavancos, primeiro no dorso nédio da ruana, mais tarde nos bancos do expresso, tendo por fronteiros dois homens terríveis, de ideias contrárias—um rotundo, conservador e católico, saudoso do monarca, bramando contra a indiferença do povo, que deixara partir para o exílio o velho soberano, sem um protesto, sem um tiro ao menos; o outro, de pêra, esgalgado e nervoso, livre pensador, formidável em teorias republicanas, contando que, nos muros da sua casa, na Januaria, havia despojos de escaramuças contra sebastianistas: chuços, arcabuzes, facas, fazendo…
Henrique Coelho Netto (autor) morreu em 1934; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 2005.