
A Mãe
Maksim Gorky (1868–?)
O começo — I
Todos os dias, na atmosfera esfumaçada e grave do bairro operário, o apito da fabrica lançava aos ares o seu grito estridulo. Então, criaturas toscas, com os músculos ainda fatigados, saíam rapidamente das pequenas casas pardacentas e corriam como baratas assustadas. Na fria meia-luz, iam pela rua estreita em direção aos altos muros da fabrica que os esperava implacável e cujos inúmeros olhos quadrados, amarelos e viscosos iluminavam a calçada lamacenta. A lama estalava sob os seus pés. Vozes estremunhadas ressoavam com roucas exclamações; pragas cortavam o ar; e uma onda de ruídos vagos acolhia os operários: a pesada traquinada das maquinas, o regougar do vapor. Sombrias e mal encaradas…
À tarde, quando o sol ia no poente, os seus raios vermelhos iluminavam as vidraças das casarias, a oficina vomitava das suas entranhas de pedra todas as escorias humanas, e os operários enegrecidos pelo fumo, espalhavam-se novamente pelas ruas, deixando atrás de si exhalações lentas da gordura das maquinas; os seus dentes esfaimados reluziam. Então havia na sua voz animação e até alegria: os trabalhos forçados tinham concluído por algumas horas; em casa aguardava-os a refeição e o descanso.
Serge Persky (tradutor) morreu em 1938; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 2009.