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Poesias

A. A. Soares de Passos (1826–?)

Poesia1 h 50 de leitura99 páginas

O começo — A CAMÕES

Ai do que a sorte assinalou no berço / Inspirado cantor, rei da harmonia! / Ai do que Deus às gerações envia / Dizendo: vai, padece, é teu fadario, / Como um astro brilhante o mundo o admira, / Mas não vê que essa chama abrazadora / Que o cerca desplendor, também devora Seu peito solitário.

Pairar nos céus em alteroso adejo, / Buscando amor, e vida, e luz, e glorias, / E ver passar quais sombras ilusórias / Essas imagens de fulgor divino: / Tais são vossos destinos, ó poetas, / Almas de fogo que um vil mundo encerra; / Tal foi, grande Camões, tal foi na terra Teu misero destino.

[6] A cruz levaste desde o berço à campa: / Esgotaste a amargura até às fezes: / Parece que a fortuna em seus revezes / Te mediu pelo gênio a desventura. / Combateste com ela como o cedro / Que provoca o rancor da tempestade, / Mas cuja inabalável majestade Lhe resiste segura.

Foste grande na dor como na lira! / Quem soube mais sofrer, quem sofreu tanto? / Um anjo viste de celeste encanto, / E aos pés cahiste da visão querida… / Engano! foi um astro passageiro, / Foi uma flor de perfumado alento / Que ao longe te sorriu, mas que sedento Jámais colheste em vida.

A. A. Soares de (Antonio Augusto Soares) Passos (autor) morreu em 1860; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1931.