
Corte na Aldeia e Noites de Inverno — Volume 1
Francisco Rodrigues Lobo (1580–1622)
O começo — DIALOGO I
Perto da cidade principal da Luzitania está uma graciosa aldeia, que com igual distancia fica situada à vista do mar oceano, fresca no verão, com muitos favores da natureza, e rica no estio e inverno com os frutos e comodidades, que ajudam a passar a vida saborosamente; porque com a vizinhança dos portos do mar por uma parte, e da outra com a comunicação de uma ribeira, que enche os seus vales e outeiros de arvoredos e verdura, tem em todos os tempos do ano o que em diferentes logares costuma buscar a necessidade dos homens: e por este respeito foi sempre o sítio escolhido para desvio da corte, e voluntario desterro do tráfego dela: dos cortesãos, que ali tinham quintas, amigos ou heranças,…
Um inverno em que a aldeia estava feita corte com homens de tanto preço, que a podiam fazer em qualquer parte, se juntava a maior deles em casa de um antigo morador daquele logar, que também o fora em outra idade da casa dos reis, donde com a mudança e experiencia dos anos, fez eleição dos montes para passar [8] neles os que lhe ficavam da vida, grande acerto de quem colhe este fruto maduro entre desenganos. Ali ora em conversação aprazível, ora em moderado e quieto jogo se passava o tempo, se gozavam as noites, se sentiam menos as importunas chuvas e ventos de novembro, e se amparavam contra os frios rigorosos de janeiro.
Francisco Rodrigues Lobo (autor) morreu em 1622; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1693.