Flirts
Henrique de Vasconcellos (1876–?)
O começo — A ESCOLA DE F LIRT
O PROFESSOR .—Sem idade, 25 ou 40, tudo lhe convém. Uma mocidade que envelheceu, ou mocidade que dura quand même , «je meurs où je m'attache». Toda a pele do rosto é sulcada por imperceptíveis rugas finissimas; a boca tem um sorriso de cético, mas os olhos ainda brilham. Parece ter conhecido tudo ou advinhado tudo. Se se olha para a boca, sente-se que conheceu, para os olhos, pensa-se que adivinhou.
Elegante, uma ponta de preciosismo,—muito pouco!—apenas presentida na maneira como olha para as mãos deliciosamente cuidadas, como as de uma senhora, viajou por toda a parte, indo mais às festas mundanas do que aos museus, leu mais jornais do que livros.
A DISCÍPULA .—Uma ingenuidade, que quer conhecer tudo, ignorando tudo. Vestida um pouco à la diable , seria positivamente fagotée sem a elegância do corpo fino e leve e o brilho e o riso dos olhos e dos lábios cor de rosa.
A discípula vai procurar o professor da Escola de Flirt, discretamente anunciada por meio de circulares em papel lilaz com dois corações em chamas estilisados à maneira moderna. É num minúsculo jardim século XVIII português, com um delgado repuxo a partir-se num pequeno tanque sem lavores e canteiros bordados por buxeiros. No centro de um, uma anagua forma uma copa verde-clara de onde pendem as campanulas brancas que perfumam.
Henrique de Vasconcellos (autor) morreu em 1924; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1995.