Flores sem Fruto
João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett Almeida Garrett
O começo
E não cuides, amigo leitor, que eu quero dizer nisto que não fiz senão versos ategora, que não farei senão prosas daqui em diante. Por meus pecados, fiz mais prosas que versos, e ajudei a gastar com elas a mocidade da minha alma e a frescura do meu coração ; baixei de sobejo ao mundo das realidades, quando tinha azas para me remontar ao ideal, e pairar-me pelas regiões onde viçam as eternas flores do gênio. Fiz, quando não devia, SEM FRUTO fiz prosa em anos de versos. Quem sabe se a stulta vaidade que m'o fez fazer então, me não levará também para o diante afazer versos em anos de prosa?
Não é minha tenção, mas não o juro; que isto de ser poeta é como ser imbarcadiço ; um dia aperta a vontade, comem os desejos por tal modo, que se vai um homem por esses mares fora, e só no meio do temporal se lembra de que já não é para semelhantes folias.
Isto porem que nasce espontâneo dalma, que vem, como ejaculação involuntária de dentro, quando trasborda o coração de jubilo ou de pena ou de admiração ; isto que é o falar do homem para Deus naquelas frases incoherentes, inanalysaveis pelas gramáticas humanas, porque são reminiscências da língua dos anjos que ele soube antes de nascer; isto que se intoa e se canta no coração, antes e muito mais belo do que o repita a língua, desses versos não tornarei eu a fazer, porque não posso, porque era mister que Deus fizesse o milagre de me re» moçar a alma: e não o fará.
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