Excerptos
Garcia de Resende , Antonio Feliciano de Castilho
O começo
Muito alto e muito poderoso príncipe, nosso senhor! Porque a natural condição dos Portuguezes é nunca escreverem cousas que facção, sendo dignas de grande memoria, muitos e mui grandes feitos de guerra, paz c virtudes, de ciência, manhas e gentileza são esquecidos. Que se os escritores se quisessem ocupar a verdadeiramente escrever nos feitos de Roma, Troya, e todas outras antigas crônicas e histórias, não achariáo mores façanhas, nem mais notáveis feitos, que os que dos nossos naturais se podiam escrever, assim dos tempos passados, como d*agora.
Tantos reinos c senhorios, cidades, vilas, castelos, por mar epor terra, tantas mil léguas, por força de ar-mas tomados, sendo tanta a multidão de gente dos con- III j I trarios, c tão pouca a dos nossos, sustidos com tantos trabalhos, guerras, fomes e cercos, tão longe de esperança de ser soccorridos ; senhoreando por força de ar-mas tanta parte de Africa ; tendo tantas cidades, vilas e fortalezas tomadas, c continuamente guerra sem nunca cessar; e assim Guiné, sendo muitos reis grandes e grandes senhores seus vassalos e tributários; e muita parte da Ethiopia, Arábia, Pérsia e índias, onde tantos reis mouros e gentios, e grandes senhores são por força feitos seus súbditos e servidores,…
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