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Capa de Antero do Quental, e Ramalho Ortigão

Antero do Quental, e Ramalho Ortigão

Alvaro do Carvalhal (1844–?)

O começo

Amigo! Contente com a alma sublimemente burguesa, que tu me conheces, vejo com pasmo, do limiar da minha porta, desfilar a soberba cohorte dos predestinados, que vão quebrando lanças em prol do belo, do ideal, do justo, por eles espremidos em guindadas teorias, capazes de reduzirem as cabeças mais bem construídas e duras à triste condição de um fruto podre de maduro. Vejo-os, e não com indiferença, porque sou curioso e adoro tudo o que me dá assumpto para o mexerico. Ora bem; o mexerico: aí tens a razão principal da minha carta; aí tens a razão porque descruzo as mãos de sobre o abdômen para tomar a pena do escritor. E que escritor!

Além disso acrescia em mim o desejo de te oferecer um delambido manjar, com que podesses, se te aprouvesse, aumentar a abundancia, que se acumula sobre a mesa dos perdularios e lambareiros colecionadores.

É tal porem a nossa terra, tal a natureza das relações, que apertam seus habitantes, que nem sempre há permissão de se abrir à luz do dia um pensamento franco, por inofensivo que seja. Assim dou razão do modo arrastado e fadigoso, porque aparece a minha tardia carta.

Alvaro do Carvalhal (autor) morreu em 1868; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1939.