A Alma Nova
Guilherme Avelino Chave de Azevedo (1846–?)
O começo — I
Eu poucas vezes canto os casos melancólicos, / Os lethargos gentis, os extasis bucólicos / E as desditas cruéis do próprio coração; / Mas não celebro o vicio e odeio o desalinho / Da muza sem pudor que mostra no caminho / A liga à multidão.
A sagrada poesia, a peregrina eterna, / Ouvi dizer que sofre uma affecção moderna, / Uns fastios sem nome, uns tedios ideais; / Que ensaia, presumida, o gesto romanesco / E, vaidosa de si, no colo ebúrneo e fresco, / Põe crémes triviais!
Oh, pensam mal de ti, da tua castidade! / Deslumbra-os o fulgor dos astros da cidade, / Os falsos ouropeis das cortezãs gentis, / E julgam já tocar-te as roçagantes vestes / Ó deusa virginal das coleras celestes, / Das graças juvenis!
Retine a cançoneta alegre das bachantes, / Saudadas nos wagons, nos caes, nos restaurantes, / Visões dolhar travesso e provocantes pés, / E julgam já escutar a voz do paraíso, / Amando o que há de falso e torpe no sorriso / Das musas dos cafés!
Guilherme Avelino Chave de Azevedo (autor) morreu em 1882; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1953.