
Contos
João da Câmara (1852–?)
O começo
Ainda lhe faltavam três léguas para chegar a casa.
Aqueles sítios já eram dele muito conhecidos. Lembrava-se perfeitamente de que, por detrás daquelas pedras, que lhe ficavam à esquerda, crescia basta a erva, regada pela água de uma fontesita, onde, por mais de uma vez, de madrugada, quando ali andava guardando as cabras da viúva, viera armar aos passarinhos.
Não havia sítio melhor para descansar um bocado.
No fardel trazia um pedaço de pão e o conduto, meia dúzia de azeitonas e um queijinho pequeno.
É comer! E, se nos der o sono, dorme-se uma sesta até que abrande o calor!
Saiu da estrada galgando a parede e encaminhou-se para a fonte, pondo em fuga as cotovias, muito mansas, muito alegres, que saltitavam nas pedras, enquanto muito alto, parecendo pontos negros no azul do céu, umas poucas de águias descreviam curvas enormes, com a mira num burro morto, que apodrecia entre os rochedos.
* / * *
Quando acordou, já o sol descera muito; o vento tinha virado para o norte e algum tanto abrandára o calor.
João da Câmara (autor) morreu em 1908; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1979.