
Fanny: Estudo
Ernest Feydeau (1821–1873)
O começo — I
A casa está situada de esguêlha, sobre um comoro de areia, à orla da praia, olhando de soslaio o oceano, como desconfiada dele. É uma casa baixa, de pavimento plano, com um recinto ao rez do chão, um portal, seis janelas, e uma chaminé de gesso, meio esburacada, no cume do telhado.
À primeira vez que de longe a vi, caminhando eu através de desertos cabedellos, tinha ela um tão triste aspecto, que eu senti serrar-se-me o coração. Estava inscrito o desamparo nas largas fendas que desconjunctavam as paredes, e nas rachas profundas das telhas desmantelladas. Gemia a porta a cada bulcão do vento que a embatia contra o gonzo único. Das montanhas aquosas do oceano erguia-se, como um sudário, a nebrina que a envolvia.
Fazia frio. Uma briza cortante sacudia, silvando o dorso das vagas, marulhando-as, revolvendo-as, e espedaçando-as. Rolos de areia, de mistura com entulho, limos e cardos, refluiam até à testada da porta. Do outro lado, à maneira de uma nodoa verde-escura, crescia a erva, que invadia o antigo jardim.
Camilo Castelo Branco (tradutor) morreu em 1890; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1961.