
Mundanismos
Almachio Diniz (1880–?)
O começo — NEDDA
Manhansinha.
A sala, de azuladas paredes seminúas, estava pobremente mobiliada: era no saguão da casa, e as duas mulheres entraram às tontas, até se abrirem de par em par as gelosias.
S AUL , de N EDDA esposo, ficàra a dormir na alcova.
E N EDDA , abismada com a indiferença dele que apenas lhe não dirigia um monosyllabo desde a hora do fato, compreendeu logo que D ONA L OURA , a sua mãe, era uma interprete das indisposições do genro…
Num canapé, as duas mulheres, D ONA L OURA , archaica nas suas vestias de capote e turbante, e N EDDA , deliciosamente matutina num roupão branco que descansava,{4} sans-dessous , sobre a finissima camizêta de cambraias,—sentaram-se, afundando em concavos a palha flaccida do cansado móvel…
—Esperava-te, maman, qualquer das horas. Quando vejo Saul levando-me entre dentes e indisposto como um burguês dispeptico, silencioso como uma esfinge e entristecido como um beato sem almoço, adivinho logo que vens por aí como a mensageira da paz. E ele foi procurar-te ontem à tarde…
Almachio Diniz (autor) morreu em 1937; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 2008.