À América
O começo
Livre enfim dos seus últimos ferros, / Das cadeias mais vis desatado, / Calmo, forte, invencível, ao lado / Dos irmãos desta América o vês: / Livre, em pé, ante o mar e menos livre, / Não lhe enturva a vergonha o semblante, / De ter ele —tão grande e possante— / Um senhor, que o avassala, em seus reis.
Levantado em montes, e serras, / Do áureo plinto de folha e granito, / A águia branca, que roça o infinito, / Vê subir; e ele inveja não tem: / Rubra aurora, que o cinge e o encontrava, / Hirta a fronte, empanada de pejo, / Sente, que hoje, imprimindo-lhe um beijo, / Beija a fronte de um livre também.
Já não mancha esta América vasta, / O Brasil, vasto, enorme, colosso, / Aço rude de escravo ao pescoço, / No olhar largo de um deus o pesar: / O farrapo de treva deixado, / Pelo tempo já ido em seu dorso, / Num momento, num último esforço, / Sacudiu em mil voltas no ar.
Renascemos p’ra América livre: / Viva a América livre e sem peias: / Fundam todos as velhas cadeias, / Peso ignóbil da nossa cerviz: / Tudo à forja; renove-se tudo, / Da cidade ao recesso da mata, / Desde as cristas dos antes ao Prata; / Arda em luz toda nova o País.
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