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A Empresa Noturna

Sebastião José Xavier Botelho

Poesia6 min de leitura5 páginas

O começo

Era alta a noite, e as beiras dos telhados / Pingando mansamente convidavam / A gente toda a propagar a especie: / Brandas torrentes, que do céu caíam / Pelas ruas abaixo susurravam; / Dormia tudo; e a ronda do intendente / Que o grão Torquato rege, o pai das putas, / Esbirro-mór, Mecenas das tabernas, / Recolhido se havia aos patrios lares. / Era tudo silencio, e só se ouvia / De quando em quando ao longe uma matraca. / Soava o sino grande dos Capuchos, / Vão-se os frades erguendo, era uma hora. / Não podia faltar: Nise formosa, / Pela primeira vez m′estava esperando. / De repente me visto, e salto fora / Da pobre cama, aonde envolto em sonhos / Mil imagens a mente me fingia.

Visto roupa lavada, e me perfumo, / N′um capote me embuço, a espada tomo, / Que nunca me serviu, mas que em tais casos / Mette a todos respeito; e qual Quixote, / Que, havendo já perdido o caro Sancho, / Sem nada recear de assalto busca / Altos moinhos, que valente ataca; / Tal eu figuro achar a cada esquina / Um Rodamonte, e pronto me disponho / A lançá-lo por terra, em pó desfeito. / Assim gastei o tempo, até que chego / Ao sítio dado, onde meu bem m′espera.

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