Os Vilhancicos
Joaquim Mendes dos Remédios (?–1932)
O começo — I
D URANTE um século pouco mais ou menos — desde o primeiro quartel do XVII até o primeiro quartel do XVIII — cultivou-se em Portugal com verdadeira paixão, podia mesmo afirmar-se, com absorvente frenesi, um gênero simultâneamente literário e musical, que pertence hoje e desde há muito aos domínios da arqueologia, estando até prestes a desaparecer sem que dele fique gravado, como convêm, o registo devido para os efeitos, pelo menos, do mero informe bibliográfico.() Quero referir-me aos Vilhancicos, breves composições destinadas a serem cantadas em solenidades religiosas, particularmente nas matinas do Natal e dos Reis e ainda nas festas de Nossa Senhora ou nas dos Santos a que a devoção…
Poetas mais ou menos favorecidos — em regra, menos, — das esquivas Musas inspiradoras, compunham em vários metros e complicadas estanças os trechos rebuscados, que algumas vezes eles próprios vestiam de sua música apropriada e que outras, e era o caso mais frequente, passavam ao compositor, que ali deixaram o registo do seu saber e da sua mestria — fazendo-os cantar quer somente a vozes quer com acompanhamento de instrumentos, sendo outros, o menor número, apenas em recitativo.
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