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Verdades Singelas

Abade de Jazente (?–1789)

Poesia5 min de leitura5 páginas

O começo

Estas verdades singelas, / Sem artifício e conceito, / Pode-as ler qualquer sujeito; / E, se vir que alguma delas / Lá pela roupa lhe toca, / Tape a boca.

Dizer um senhor fidalgo / Que tem três contos de renda; / E que gasta uma fazenda / Só em sustentar um galgo, / Que todas as lebres mata, / Patarata.

Querer outro senhoria / Quando tinham seus avós. / Um tu, um você, um vós, / Somente por cortesia / Do cura, ou do senhorio, / Desvario.

Trazer de luto os criados / Um senhor mui reverente, / E dizer a toda a gente / Que gastou três mil cruzados / De seu pai no mortuário, / Gabatório.

Andar outro embonecado, / Ter amores, ter afetos, / E depois de ter já netos, / Andar inda namorado / Sem se lembrar da velhice, / É tontice.

Dizer um por vários modos / Que nos seus antepassados / Tem trinta réis coroados / Do claro sangue dos Godos / Que pelas veias lhe gira, / É mentira.

Andar outro como brasa / Vendendo soberba a molhos, / E metendo pelos olhos / Os brasões de sua casa, / E de seus avós o foro, / Desaforo.

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