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Dor e Luz (Versos de um Seminarista)

Acúrcio Correia da Silva (1889–?)

Poesia32 min de leitura28 páginas

O começo — CARTA AOS MEUS CONDISCIPULOS

Maio de 1912.

Rapazes.

Estes versos, que agora vos oferêço, repoisam há cinco meses, no fundo da minha gaveta, misturados com muitos outros, que eu de há muito para lá venho lançando, como farrapos do meu coração ardente, como pétalas caídas da minha alma de rapaz.

Não contava publica-los, como não conto publicar uma grandíssima parte desta versalháda desconéxa, que aqui se me amontôa pelas gavetas da minha mesinha de estudante, e na qual repousam, adormecidas ou mortas, tantas aspirações ingénuas, tantas ilusões airádas, tantas tristêsas ignoradas, intimas…

Mas nós vamos distanciar-nos, ó rapazes! Vamos para muito longe uns dos outros, e—sei lá!—talvês 8 para sempre. É a obra bendita da evangelisação social que nos solicita, nos chama.

E já que assim tem de ser, eu queria deixar-vos, antes do apartamento, alguma coisa,—uma recordação—por que mais tarde vos lembrasseis, lá muito ao longe, deste rapaz trigueiro, desgrenhádo, de faces escavacádas e fundos olhos erradios, que convosco viveu por aqui a mesma vida, a mesma juventude, as mesmas aspirações de evangelisação e amor.

Acúrcio Correia da Silva (autor) morreu em 1925; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1996.