Napoleão no Kremlin
José da Silva Mendes Leal (1818–1886)
O começo — I
Era a colina santa, e em volta a gran-cidade!
Revolvera o cabeço uma audaz tempestade / De granito e de bronze, arremeçando aos céus / Por ondas bastioens, por vagas coruchéus! / Era nova Babel, soberba e formidável; / Tudo o que é opressor; tudo o que é implacável; / Das impostas pendendo os anéis dos grilhoens; / Sétteiras nos jardins; nos eirados canhoens; / Cem vigias de pedra em cada miradoiro; / Ao rez grades de ferro; em cima tectos doiro; / Uma pompa violenta, uma ansiosa mansão, / Que dirieis romper da boca de um vulcão!
A espaços, coroando a tétrica cerviz / De um torreão firmado em rudes alcantis, / Metalico zimborio esplende ao astro esquivo, / Como o élmo que aperta a fronte de um cativo. / Emmaranham-se à vista arcadas e quartéis, / E os grossos revelins, e os rendados maineis. / A um tempo Europa e Asia, opróbrio e maravilhas; / Num reduto um bazar; as áras nas bastilhas; / Abrolhando o recinto um selvoso espessor / De agudos campanis—e no todo o terror!
José da Silva Mendes Leal (autor) morreu em 1886; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1957.