À Ilha da Madeira
José Ramos Coelho (1832–1914)
O começo
LISBOA / Empreza do «Occidente»
À ILHA DA MADEIRA / Ao nauta que do mar tempestuoso / Vem dos baldões asperrimos cansado, / Tu te mostras, ó ilha feiticeira, / Como, depois de sono fadigoso / De horríveis pezadellos, / Um dia delicioso, / Todo alegria e festa e raios belos, / Um claro dia pelo sol doirado.
Se isto é hoje d'est'arte, / O que seria dantes, / Quando te desvendaste a vez primeira / Da névoa e do mistério em grande parte / Á vista dos pasmados navegantes! / Que, não bastando ainda estar perdida / No meio do oceano, / Por séculos dos homens escondida / Em recondito arcano, / Tu, qual donzela cândida e medrosa, / Que do banho saísse, / E a nudez, vergonhosa, / De alvo cendal cobrisse, / Em manto de neblina te embuçavas: / E até do mar, que às plantas te gemia, / E até do próprio sol, que te queria, / A virgem formosura recatavas.
Porém chegou o dia / Pelo Eterno marcado, / Em que, apesar desquiva, / Te rendeste cativa / Do sol da nossa gloria à viva chama, / Ao generoso brado / Do grande Henrique de perpetua fama, / Quando, assim como do Sinai o monte, / Sagres de raios coroou a fronte, / E, desmedido faro, / Ao marinheiro ignaro / Fez dissipar as trevas do horizonte.
José Ramos Coelho (autor) morreu em 1914; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1985.