Paraíso Perdido
O começo — Livro I
Do homem primeiro canta, empírea Musa, / A rebeldia — e o fruto, que, vedado, / Com seu mortal sabor nos trouxe ao Mundo / A morte e todo o mal na perda do Éden, / Até que Homem maior pôde remir-nos / E a dita celestial dar-nos de novo.
Do Orebe ou do Sinai no oculto cimo / Estarás tu, que ali auxílios deste / Ao pastor que primeiro aos escolhidos / Ensinou como do confuso Caos / Se ergueram no princípio o Céu e a Terra? / Ou mais te agrada Sião e a clara Síloe / Que mana ao pé do oráculo do Eterno? / Lá donde estás, invoco o teu socorro / Para este canto meu que hoje aventuro, / Decidido a galgar com voo inteiro / Muito por cima da montanha Aônia, / De assuntos ocupado que inda o Mundo / Tratados não ouviu em prosa ou verso.
E tu mais que ela, Espírito inefável, / Que aos templos mais magníficos preferes / Morar num coração singelo e justo, / Instrui-me porque nada se te encobre. / Desde o princípio a tudo estás presente: / Qual pomba, abrindo as asas poderosas, / Pairaste sobre a vastidão do Abismo / E com almo portento o fecundaste: / Da minha mente a escuridão dissipa, / Minha fraqueza eleva, ampara, esteia, / Para eu poder, de tal assunto ao nível, / Justificar o proceder do Eterno / E demonstrar a Providência aos homens.
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