Os Filhos do Padre Anselmo
António José da Costa Couto Sá de Albergaria (1850–1921)
O começo — I Os irmãos da mão negra
O relógio dos Clerigos tinha acabado de fazer soar pausadamente as doze badaladas da meia noite.
O tempo estava brusco e o vento, soprando da barra em frias e cortantes rajadas, punha arrepios nos transeuntes que, levantadas as golas dos casacos e as mãos metidas nos bolsos, seguiam a passo apressado, recolhendo a casa, sob a ameaça de um temporal desfeito.
Era em fins do outono.
As arvores do jardim da Cordoaria, varejadas pela ventania asperrima, despiam-se das suas últimas folhas amarellecidas, num agitado e sussurrante protesto de espoliadas.
Quem a essa hora passasse pelo Campo dos Martyres da Patria, veria, encostado a uma das arvores que orlam o jardim, defrontando com a praça do Peixe, um vulto imóvel e indiferente ao tempestuoso rugir daquela noite agreste e frigidissima.
Parecia esperar alguém, porque, ao ouvir bater a meia noite no relógio da torre, levou a mão ao bolso [2] e, aproximando-se de um dos candieiros da iluminação publica, consultou o seu relógio.
António José da Costa Couto Sá de Albergaria (autor) morreu em 1921; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1992.